Menos é sempre Mais?

por | fev 18, 2021 | Sem categoria

Uma reflexão sob a influência do glamour de Paris na logo das Olimpíadas de 2024.

Neste início de ano, estive olhando com mais cuidado para a marca das Olimpíadas de Paris, e pouco a pouco fui pesquisando as sensações que a marca transmitia e me deparando com diversos memes e críticas.

Mas o que foi realmente que deu errado na construção dessa marca? Errado mesmo, a princípio, nada. 

O conceito é incrível e, como mulheres feministas que somos, deveríamos nos sentir prestigiadas com a obviedade da figura feminina tão rapidamente detectada? Será que isso representa as Olimpíadas e as Paraolimpíadas, que pela primeira vez na História, compartilharão a mesma marca? Será que aquele corte repicado típico dos anos 1990 consegue unir bem o conceito da glamorosa cidade sede com a tocha olímpica? Não sei… façamos juntos um exercício de entendimento da marca para juntos chegarmos a uma conclusão. 

E, para isso, vamos entender um pouco o caminho criativo que a marca percorreu.

Historicamente, os países não necessariamente usam a mesma marca que apresentaram na candidatura e, com Paris, não foi diferente. Na marca da candidatura, vimos a emblemática Torre Eiffel feita por fitas que se entrelaçam criando o número 24. Particularmente gostei muito!

Logo da Candidatura

No entanto, para os Jogos, propriamente dito, houve uma mudança de alinhamento e criaram um único elemento que condensou três conceitos  básicos: a medalha de ouro (“imutável como a determinação, deslumbrante como o talento e eterna como a vitória”), a chama olímpica (“que mantém as pessoas unidas pelos valores do esporte além das fronteiras, dos países e das gerações”) e o rosto humano personificado pela Marianne, mulher que simbolizou a revolução francesa (“cujo espírito francês revela a ambição de ser igualitária, partilhadora e generosa”). Tudo isso muito bem defendido e explicado no vídeo de lançamento que vocês podem ver no instagram @paris2024. 

Logo Oficial

O conceito é bom. Então, o que deu errado para criar esse furor na internet com milhares de memes e críticas? Eu tenho três palpites para combinar com os três conceitos base da logo. Mas, antes, vamos dar uma olhadinha nesses memes?

O primeiro é a adequação 

Os jogos Olímpicos e Paraolímpicos são para todos, para todas as nações, e sediados em Paris. É muito bacana, em teoria, a união da Marianne ao conceito, pois ela é tida como a Deusa guia da nação francesa no quadro “Liberdade Guiando o Povo” de Eugène Delacroix, que representa a República. O problema é que ninguém conhece o personagem, toda essa magnitude foi simplificada a tal ponto que se perdeu no caminho e o que sobrou foi uma mulher com um ar levemente esnobe.  

O segundo é o estereótipo
Este vem para complementar a adequação. Para quem não sabe exatamente o que é um estereótipo, ele é aquela ideia, conceito ou modelo pré estabelecido de imagem do que deve ou não ser determinada coisa, no caso aqui, de como deve ser uma francesa. Ao meu ver, ele acaba por “rotular” a parisiense muito mais do que representar o franco sentimento revolucionário pretendido.   

O terceiro é a objetificação do feminino 

Essa boa dose de objetificação da figura da mulher nos deixa com um problema óbvio por trás do humor dos memes pois pode-se identificar uma depreciação do feminino. Mesmo sabendo que não é essa a intenção do símbolo, ele traz à tona uma questão importante de ser olhada. 

Para que não pensem que detestei a marca, quero deixar claro que ela cumpre a maioria de seus objetivos, pois é simples, limpa e tem uma tipografia … ah, essa tipografia… ela é  incrível e nos transporta diretamente para Paris. Com uma aplicação elegante, limpa e sofisticada, faz uma releitura contemporânea inspirada no movimento Art Decó. E com o carinho pela época em que os últimos jogos foram sediados na cidade, há exatos 100 anos (1924). Aí sim, eles acertaram em cheio! 

E aí, chegou a alguma conclusão? O que você achou da logo? Conta pra gente. 

JOANA BLASS, diretora de arte da Rebento.cc